Editorial
A cultura do pecado e a destruição das virtudes
- Pe. Abilio Soares de Vasconcelos
Estamos na "quaresma" e mais
uma vez, na maior parte das igrejas católicas, se insiste na cultura do pecado levando uma boa parte dos
fiéis, que as frequentam, à depressão,
ao pessimismo ou ao desânimo: sou um
"eterno pecador".
Pelo que se vê, começando pela "quarta feira de cinzas" até
às insistentes confissões individuais e
exames de consciência tendenciosamente voltados para os "pecados", não
podemos esperar muito da floração da
sementeiras das "virtudes" que deveriam levar o homem a colher já na terra os
frutos da liberdade, da alegria e da paz
consigo mesmo, com os seus semelhantes e um convívio saudável e familiar
com o próprio Deus.
Na quarta feira de cinzas, os folhetos da
missa insistiam na fórmula altamente
destruidora de toda a esperança humana:
- "lembra-te, ó homem, que és pó e ao
pó voltarás".
Pior do que isso, só aquela
outra que acolhe as pessoas que visitam
a Capela dos Ossos na Igreja de São
Francisco em Évora, Portugal:
- "Nós (ossos, caveiras, esqueletos) que aqui estamos pelos vossos esperamos".
Pensavam os antigos pregadores que
metendo medo, ou fazendo os fiéis chorar amargamente seus pecados, iriam
atraí-los ou forçá-los a frequentar as
missas de domingo e dias santificados, e
a contribuir mais com as despesas da
igreja. Pura ilusão! As crianças são as
que mais choram e não são pecadoras!
Mesmo que verdade fosse, acaso foi
isso que Cristo ensinou e mandou ensinar por todo o mundo? - Não. Não é
dizendo "eu sou feio, que irei ficar bonito"; nem será por causa do meu choro
que Deus vai perdoar meus pecados; nem pelo grito que Ele vai atender meus pedidos.
Outra motivação quaresmal é a cura do
pecado pelo tripé: jejum, esmola e abstinência. Transformou-se assim, o que
poderia ser um "fortificante" para o cultivo das virtudes, em "pesticida" para
matar as "pragas" do pecado na faixa
etária em que mais "parece" que se peca
(dos 21 aos 60 anos). Além de pecadores ainda somos chamados de: "pobres
pecadores". Que valor tem deixar de
comer carne para encher a barriga de
pescado, de caviar? Que adianta jejuar "para não ir
para o inferno", quando também o médico receita o jejum para emagrecer, para
não morrer, ou para ficar mais elegante? Que
valor tem a caridade feita com o dinheiro do suor dos outros, ou simplesmente para atrair as atenções público
para a "bondade" do doador? Mas o tripé é valioso. Sim,
quando dele nos valemos para fortificar
a fé, a esperança e a caridade ... no amor
a Deus e no amor ao próximo.
Os exames de consciência, distribuídos
gratuitamente às resmas durante a quaresma, só visam "pecados", que vão desde os "maus pensamentos" (mesmo não consentidos), até aos crimes que bradam aos
céus. Como se as pessoas passassem os
dias pensando e fazendo somente coisas proibidas por Deus. E mais, uma
vez confessados os pecados e recebida
a absolvição, ainda tem muita gente que
volta a confessá-los até mais que uma
vez, numa pura demonstração de que
não confiam no perdão que lhes foi
dado por Deus através da boca do confessor. Afinal, Cristo não disse textualmente: "a quem perdoardes os pecados
ser-lhes-ão perdoados"? Foram ou não
foram perdoados? Se foram, porque confessá-los
de novo? Será que Deus volta atrás no
que promete ou no que faz?
Tempo da quaresma é sim, tempo propício para "comer e beber" em abundância o "alimento de Deus" revelado
nas Escrituras; para abster-se do tempo
desperdiçado em conversas balofas,
que não levam a nada que se aproveite;
de abrir as portas da casa e do coração
para os filhos pródigos seduzidos por
quimeras que os arrastam para a destruição da alma ... e do corpo.
Em vez do choro e do bater no peito, ou gritarias,
como as crianças fazem quando querem alguma coisa, vamos antes seguir o exemplo da mãe de Jesus e com ela cantar
"minha alma engrandece ao Senhor e
meu espírito se alegra em Deus meu salvador". Vamos, sim, fazer um "verdadeiro exame de consciência" que nos
mostre tudo o que de bom, de positivo,
fizemos durante o dia:
- a quem ajudamos com palavras e obras;
- o que
aprendemos a mais sobre a boa nova do
evangelho;
- quantos talentos a mais já acrescentamos aos que recebemos de Deus;
- quanto economizamos para poder ajudar mais o próximo que está numa fase ruim de vida;
-etc.
Tem que ser um exame
de consciência que desperte em nós
uma vontade firme de fazer o bem e
obter resultados positivos ainda maiores. Doutra forma, é entrar no desespero
ou, no mínimo, jogar fora o tempo perdido com o exame de consciência.
Sofrer, morrer crucificado? Cristo já
fez tudo isso por nós ... já nos libertou.
Não será batendo no peito e gritando
aos quatro ventos "eu sou um pobre
pecador" que me transformarei num santo. E Cristo sabe muito bem disso.
Precisamos,
sim, ser testemunhas e anunciar por
toda a parte que Cristo morreu pela salvação e libertação de todos os homens,
que ressuscitou ao terceiro dia e está
vivo entre nós.
Páscoa é vida nova para
Cristo e para todos nós.
Alegremo-nos no Senhor.
Feliz Páscoa para
todos os caríssimos
paroquianos e leitores.
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